segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Acertando no timing de mercado, Gordon Gekko volta no novo filme "Wall Street"

SÃO PAULO – Poucas pessoas conseguem acertar o timing dos mercados – a melhor e a pior hora de realizar um negócio, de entrar e sair numa ação. O diretor de cinema Oliver Stone é, aparentemente, uma delas – não no sentido mais literal, de comprae venda de ativos, mas no momento escolhido para o lançamentode “Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme”.
A continuação de “Wall Street”, de 1987, chega aos cinemas em uma hora em que os Estados Unidos ainda se recuperam da crise dos subprimes, em que os mercados – e os cidadãos de maneira geral - ainda seguem receosos com a recuperação da economia e com o que exatamente é feito nos principais centros financeiros do mundo. No Brasil, a estreia é esperada para a próxima sexta-feira (24).
De insider trader a Dr. Apocalipse
No novo filme, que se passa em 2008, pouco antes da crise do subprime vir à tona, Gordon Gekko – personagem baseado em Ivan Boesky - já não é mais um insider trader. Tampouco emergiu de seus oito anos de prisão um homem reformado. Ele se transformou em uma versão de Nouriel Roubini, o Dr. Apocalipse. "The ultimate bear" (o mais pessimista), diz um personagem.
Agora autor de livros sobre o mercado financeiro voltados ao grande público, ele discursa para universitários sobre o perigo do incentivo desenfreado ao consumo nos EUA, sobre a forte participação de operações financeiras nos resultados corporativos e, principalmente, para o perigo da multiplicação das hipotecas. “Eu dizia que a ganância era boa; e agora ela também é legalizada” e “a especulação é a mãe de todos os males” são algumas das falas da antiga estrela do Wall Street fictício.
Lehman, Fed e os “too big to fail”
O filme traz uma reconstituição do que ocorreu nos mercados antes da quebra do Lehman Brothers – que ganha um paralelo na ficção, com direito à reunião do Federal Reserve que decidiu não resgatar o banco da falência. Na versão de Oliver Stone, a quebra de uma grande empresa de investimentos é baseada não somente nos títulos podres, mas também em uma jogada de outro player do mercado, movida à vingança de uma bolha anterior.
O desenvolvimento da crise – com o recuo dos índices, o início dos defaults nas hipotecas e o resgate do Fed às instituições “too big too fail” (aqui, justificada pelo argumento de que, sem o socorro, “O mundo vai acabar. Como em 1929, mas mais rápido”) – tem seus efeitos nos dramas individuais dos personagens que dão corpo ao filme, especialmente no futuro genro de Gekko, o trader Jacob Moore. Assim como Bud Fox no primeiro filme, Moore aprende que o mundo dos investimentos não é tão sólido e fácil quanto parece. Já à Gekko resta apontar os gráficos do Dow Jones e FTSE100 e dizer “eu avisei” – além de um drama pessoal sem muitas ligações com os mercados.
Para quem acompanha de perto o mercado financeiro, é fácil identificar alguns personagens e situações, ligando-os com suas versões na vida real. Há, inclusive, aparições de personalidades do meio, como Warren Buffett, que aparece falando sobre a crise em um programa de TV. Já para quem não conhece Wall Street, apesar do ritmo acelerado, as explicações sobre subprimes, sobre como a crise se espalhou e se tornou sistêmica, e sobre o próprio funcionamento do mercado são simples.
Bolhas, bolhas, bolhas
Outro ponto abordado é o efeito de rumores, que são começados por um simples e-mail e por mero interesse pessoal. A repercussão de um rumor na mídia e nas casas de investimento ajuda a mostrar que, muitas vezes, não há justificativa palpável para o movimento de uma ação, e que os insider traders – tema do filme original – ainda agem abertamente no mercado.
As bolhas – da internet, do mercado imobiliário e, no futuro, de acordo com o filme, da energia verde – também ganham bastante espaço. Vale dizer que, ao estilo do real Dr. Apocalipse, Gekko diz que a bolha do subprime ainda não é a maior delas.
Ao recriar – ou dramatizar - as situações reais, Oliver Stone oferece ao espectador uma oportunidade de satisfazer sua curiosidade sobre como foi, ou pode ter sido, o colapso dos mercados financeiros, da perspectiva dos próprios responsáveis pela quebra. Com a recuperação da economia em dúvida, o Fed no foco do noticiário e os temores de um double-dip à frente, o timing não poderia ser melhor.

Cuidados com a carteira

Fraude de consultoria financeira ressalta as precauções que os investidores devem tomar para evitar as arapucas dos espertalhões
Por Márcio Kroehn
A proposta era tentadora: 100% de rentabilidade dos Certificados de Depósito Interfinanceiro (CDI) mais prêmios. Pena que não fosse verdade. Foi uma arapuca montada pela Dinero Consultoria, falsa empresa financeira que está sendo investigada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
A Dinero parou de funcionar após o feriado de 7 de Setembro. Seus sócios, Wagner de Aguiar Moraes e Wanderley Dias Bertolucci, informaram os investidores que tudo estaria normalizado na terça-feira 14, o que não ocorreu. DINHEIRO procurou entrar em contato com a empresa, mas ninguém atendeu o telefone.
A Dinero é uma das diversas fraudes descobertas nos últimos meses. Seu perfil lembra o da Agente BR, casa de câmbio que criou irregularmente clubes de investimento. Seu proprietário, Túlio Vinícius Vertullo, foi multado em R$ 3 milhões pela CVM. O ambiente está favorável aos amigos do alheio. “Os oportunistas aparecem em momentos de muita liquidez e diversificação da poupança”, diz Marcello Klug Vieira, do Salusse Marangoni Advogados.
Quem quiser evitar perder a carteira tem de tomar alguns cuidados. O principal é desconfiar de rentabilidades milagrosas. Ganho inacreditável significa fraude ou riscos subestimados. “Os espertalhões contam com o desconhecimento e com a ganância de quem investe”, diz José Luis Doles, sócio do Barcellos e Tucunduva Advogados.
Outro cuidado é verificar se os administradores são reconhecidos pelas autoridades. Moraes e Bertolucci são velhos conhecidos da CVM. Eles foram advertidos pela autarquia em abril de 2009 pela venda irregular de cotas de um clube de investimento, o AXT, que foi desativado. A advertência está na página da CVM na internet. Finalmente, nunca tome decisões baseadas nas dicas de amigos.
Um especialista com conhecimento básico de mercado teria feito uma verificação prévia para saber se a Dinero, a AXT ou a Agente BR poderiam oferecer os produtos que estavam vendendo, e alertar o investidor para as irregularidades. Sem esses cuidados, o prejuízo é quase certo. “É difícil recuperar o dinheiro aplicado nesses esquemas, pois os recursos normalmente são desviados para outras finalidades”, afirma Vieira.
PRECAUÇOES PARA NAO SER ROUBADO:
1 - Desconfie de rentanbilidades exageradas
2 - Conheça os riscos de qualquer investimento
3 - Busque informações em fontes confiaveis, como a CVM
4 - Dicas de aplicações devem ser pedidas para especialistas
5 - Pense bastante antes de entregar seu dinheiro a terceiros

Entenda o porquê de o dólar estar derretendo e como isso afeta o País

A adoção pelo governo de um conjunto de medidas para conter a desvalorização do dólar envolve dois movimentos de compra, um no mercado à vista e outro no futuro.
Ao comprar os dólares que estão sobrando no mercado, o governo força uma valorização da moeda estrangeira nos mercados financeiros, porque haverá mais gente comprando dólares do que vendendo. Essa opção pela compra à vista já é feita hoje pelo Banco Central por meio dos leilões de compras semanais, e impacta diretamente nas reservas externas.
Como tem havido muita oferta de dólar no mercado brasileiro, em função dos investimentos de estrangeiros no País, o descompasso entre a quantidade de pessoas que está vendendo dólares e quem está comprando tem interferido diretamente na cotação do dólar.
Esta semana, o dólar atingiu a menor cotação do ano, girando próximo a R$ 1,70 para a venda. Para alguns especialistas, esse valor ainda é alto, visto que o País deve receber nos próximos dias entre US$ 15 bilhões e US$ 20 bilhões de investidores estrangeiros apenas com a capitalização da Petrobras.
Para que esse dinheiro todo não fique circulando no mercado, fazendo com que o valor do dólar seja menor, em função da oferta maior de moeda, o governo já se manifestou dizendo que vai comprar todo o fluxo que entrar com a capitalização. Para isso, decidiu utilizar os recursos do Fundo Soberano Brasileiro (FSB), espécie de poupança que o governo tem para utilizar em momentos em que o Estado precisa intervir na economia.
Mercado futuro
Há também uma pressão detectada no chamado mercado futuro de câmbio. Temendo que o dólar vá se enfraquecer ainda mais, alguns bancos têm feito contratos de venda de dólar que só serão executados daqui a alguns meses. Esses bancos apostam que é melhor vender o dólar caro que compraram há algum tempo por um preço um pouco menor hoje do que ficar sentado em uma montanha de dólares que começa a perder valor dia a dia.
Para evitar prejuízos ainda maiores, esses bancos vão ao mercado e oferecem contratos de câmbio a valores maios baixos dos praticados hoje. Ainda que pareça um mau negócio agora, a aposta desses bancos é que o dólar vá recuar ainda mais, o que quer dizer que é melhor perder pouco do que perder muito. Os compradores desses contratos são investidores que apostam quem o governo não vai deixar o dólar derreter.
De fato, o governo já disse que vai agir para conter uma desvalorização ainda mais forte do dólar, que, por estar mais barato, encarece o real brasileiro. Como tudo o que o País vende é em reais, quanto mais forte tiver cotada a nossa moeda, mais caro será nosso produto. Com isso, as indústria terão mais dificuldade em colocar seus produtos e, consequentemente, terão de demitir funcionários, gerando desemprego e reduzindo a riqueza do País.

Instabilidade asiática deve afetar commodities brasileiras

Os prováveis ajustes na economia chinesa poderão respingar no Brasil. O principal efeito da desaceleração deverá ser visto nas exportações brasileiras de commodities, segundo avaliação do economista Fabio Silveira, da RC Consultores.
"O grande problema é que ninguém sabe quanto há de crédito podre na economia chinesa. O que se sabe até agora é que existe a estratégia do governo de reduzir a concessão de crédito e criar limitações. Isso começou a ser feito pelo banco central chinês no início do ano, mas em um ritmo bem lento", explica Silveira.
Ainda que não se saiba em que proporção será feita a desaceleração do crédito na China a partir de agora, o fato é que haverá efeitos por aqui. "A correia de transmissão entre o Brasil e a China são as commodities.
Se o índice de inadimplência entre os chineses for de pequena proporção, entre 3% e 4%, podemos esperar uma derrubada de 10% a 20% nos preços internacionais das commodities, porque as encomendas de commodities vão perder o ritmo", adverte.
Além de prováveis problemas para grandes exportadores de minério de ferro e de grãos, a queda na cotação das commodities deverá causar arranhões na balança comercial brasileira.
Segundo cálculo de Silveira, as perdas causadas pela cotação menor podem chegar a até US$ 10 bilhões - ou seja, o saldo da balança comercial brasileira nos próximos 12 meses poderia, neste cenário, encolher de US$ 15 bilhões para US$ 5 bilhões.
"Se isso acontecer será inevitável que o Banco Central brasileiro mexa no câmbio, desvalorizando a moeda brasileira para de alguma forma compensar a queda nas exportações", analisa o economista da RC Consultores

O pesadelo americano

A crise revira os sonhos das famílias nos EUA e provoca mudanças que vieram para ficar
Economia é uma ciência temperamental. Bom, tenho lá minhas dúvidas se é ciência, mas temperamental certamente é. Sem pedir licença, ela invade nossos lares e remexe as nossas vidas das formas mais inusitadas.
No Brasil, ultimamente, temos assistido ao lado caridoso da madame Economia. Nos últimos anos, muitos brasileiros pela primeira vez tiveram acesso à casa própria, ao carro zero-quilômetro, a uma geladeira nova e colorida ou a uma viagem a Porto Seguro.
Nos Estados Unidos, por outro lado, dona Economia tem andado de mau humor e chacoalhado
até a estrutura da família americana.
A recessão dos últimos dois anos, com a destruição de trilhões de dólares em riqueza e mais de oito milhões de empregos, tem forçado americanos a cancelar a saída da casa dos pais e estudar perto de casa, a postergar a troca do carro e até, em alguns casos, fazer as malas e vir trabalhar por aqui em busca de melhores oportunidades.
Para azar das mocinhas casadoiras da terra do Tio Sam, os americanos casaram-se menos no ano passado. Como todo mundo que passou pela experiência sabe, casar custa caro. Com menos empregos e crédito, muitas noivas estão sendo enroladas ou, na melhor das hipóteses, tendo de aceitar apenas juntar os trapos, dispensando papel passado mais festa, vestido e bolo.
Quem acha que casar custa caro, espere até chegarem os filhos, fraldas, escola, aulas disso e daquilo. Temerosos, os americanos pisaram no freio também na procriação. O número de nascimentos despencou no último ano. Ampliar a família – ou não – ficou para depois.
Quer dizer que a crise e a recessão estão reduzindo o número e o tamanho das famílias americanas? Não necessariamente. Com a Economia, nada é tão simples.
Há um fato na vida familiar que pode custar ainda mais caro que o casório, a lua de mel e até os filhos: uma eventual separação. O número de divórcios despencou por lá. Melhor aguentar a jararaca do que acabar quebrado – parecem estar pensando muitos dos gringos.
Muitos acreditam que esta recessão americana não passa de uma crise passageira, como tantas outras, e que tudo logo volta ao normal. Se eles estiverem certos, estas tendências familiares serão revertidas.
Infelizmente, eu não tenho a mesma fé. Durante quase três décadas, famílias, instituições financeiras e o governo americano se endividaram para sustentar um estilo de vida em que o consumo era muito superior à renda. Mais hora, menos hora, chegaria o inverno e o momento de as cigarras terem de apertar os cintos, poupar mais, pagar dívidas e consumir menos. Desconfio que tal momento chegou. Tentativas do governo americano de aumentar os gastos públicos só conseguirão, na melhor das hipóteses, postergar o ajuste, roubando do futuro para tornar o presente menos duro.
Se eu estiver correto, é possível que um período longo de desempenho econômico medíocre cause mudanças permanentes na estrutura familiar americana. Menos casamentos, menos filhos e relações desgastadas mantidas apenas por razões financeiras. Pobre sonho americano.

Quebrados, EUA vão perder poder

Aqueles que culpam os americanos por tudo o que está errado no globo podem comemorar: em pouco tempo, os Estados Unidos deixarão de ser a nação mais influente do mundo. Com a crise financeira iniciada em 2008 e um enorme passivo de aposentadorias e sistema de saúde, o país está quebrado. Não terá mais dinheiro para gastar livremente em política externa e intervir nos cantos mais remotos do planeta. Esse é o prognóstico de Michael Mandelbaum, diretor do Centro de Política Externa Americana na Universidade Johns Hopkins. Mas até os mais aguerridos americanófobos podem acabar se lamentando, alerta Mandelbaum, autor do livro recém-lançado Superpotência Frugal - a liderança global dos Estados Unidos em uma era de vacas magras. Com menos dinheiro, há menos riscos de os EUA cometerem erros como a guerra do Iraque. Ou, como disse em coluna recente Thomas Friedman, de The New York Times, "hoje não temos dinheiro nem para invadir Granada". Mas Mandelbaum adverte que "o mundo vai ficar mais perigoso" com menos influência dos EUA, porque o país pode deixar de ser contraponto para ambições expansionistas de Rússia e China e não será tão eficiente como "garantidor" do petróleo do Oriente Médio.
O mundo ficará melhor com os EUA com um papel reduzido?
Muito provavelmente o mundo será um lugar pior, e não melhor, com o papel reduzido dos EUA. O papel dos EUA é único e muito importante, embora muitas vezes não seja reconhecido. Os EUA funcionam como um governador "de facto" do mundo, oferecendo ao mundo parte dos serviços que os governos nacionais oferecem a seus países. A política externa americana é essencial para a economia global e ajuda na estabilidade da Europa, Leste da Ásia e Oriente Médio. Sem isso, o mundo seria menos pacífico e menos próspero.
O declínio da liderança americana no mundo será aparente no curto prazo?
Os EUA já deixaram de atuar como "consumidor de última instância" no mundo. Países como a China não podem mais contar com os EUA para absorverem grande parte das exportações. E os EUA vão parar de se envolver em projetos de "construção de nação", como fizeram na Somália, Haiti, Bósnia, Kosovo, Afeganistão e Iraque. Os destacamentos americanas na Europa, Leste da Ásia e Oriente Médio para ajudar a manter a paz nessas regiões certamente vão ser reduzidos ou desaparecer. O perigo é radicais no Irã passarem a acreditar que nem os EUA nem nenhum outro país fará nada para contê-los, o que torna o mundo mais perigoso e aumenta os riscos de uma guerra no Oriente Médio
Os EUA já passaram por crises antes e nem por isso perderam a liderança. Por que desta vez é diferente?
Esta é a crise econômica mais séria desde a Grande Depressão de 30. Além disso, o governo americano vai enfrentar passivos financeiros de uma magnitude inédita nos próximos anos, de Previdência Social e assistência médica. Os custos vão subir vertiginosamente na medida em que os 75 milhões dos integrantes do "baby boom" começam a se aposentar.
Se houver uma crise séria - o Irã testar uma arma atômica -, os EUA, nesta era de vacas magras, deixariam de intervir?
Esperamos que todos os países cooperem para confrontar o Irã e impedi-lo de obter armas nucleares. Sem a necessária cooperação internacional, o fardo de garantir os interesses do mundo no Oriente Médio recai sobre os EUA. Mas é difícil prever o que o governo americano faria em tais circunstâncias.
Neste novo cenário geopolítico, qual seria o papel do Brasil? O país pode ser líder?
O Brasil certamente pode e dede contribuir para manter a ordem global. Uma maneira eficiente para o Brasil exercer liderança é juntar-se a outros países e impor sanções drásticas sobre o Irã.

O perigo de uma nova crise continua grande

Instituto Max Planck, de Munique, há o perigo de bolhas em países emergentes, como China e Brasil, porque essas nações seriam alimentadas hoje, em parte, pelo excesso de liquidez dos países industrializados. Autor do livro Schulden ohne Sühne (Dívidas sem expiação, em livre tradução), pela editora C.
H. Beck, Konrad, de 49 anos, afirma que a situação da Europa continua sendo bastante delicada. Em três anos, quando acabar a validade do pacote da União Europeia de ajuda aos países endividados, a insolvência de um deles poderia ser um terremoto capaz de ofuscar a última crise. O perigo continua grande, disse em entrevista ao GLOBO.
Graça Magalhães-Ruether
Correspondente
O GLOBO: É possível uma nova crise, tão grave quanto a que começou em 2008? KAI KONRAD: Se houver uma insolvência em nível europeu, então teríamos um terremoto que ofuscaria a última crise. O perigo continua grande. Trata-se de um desdobramento que não vai ocorrer amanhã, mas pode vir nos próximos dez anos. O risco de uma nova crise nos próximos três anos vejo como pequeno.
Há perigo também nos países emergentes? KONRAD: Uma grande parte do excedente de liquidez dos países ricos, principalmente de EUA e na Europa, foi transferido para os países emergentes, o que pode causar novas bolhas. Se houver um problema na China, os efeitos seriam graves na Europa, que está se recuperando às custas da fome de importação chinesa. Há anos se fala sobre o superaquecimento da China, que pode chegar a um colapso.
O endividamento dos países industrializados pode desencadear uma nova crise? KONRAD: O nível de endividamento dos países industrializados adquiriu uma dimensão nunca vista em tempos de paz. Explosão das dívidas como vimos agora tinha ocorrido antes somente nas guerras mundiais.
Há então o perigo de uma nova crise? KONRAD: Se não forem tomadas medidas, chegaremos a situação de que países europeus que aumentaram as suas dívidas precisarão ser ajudados pelos outros e, com isso, teremos uma comunidade de transferência, o que oculta muitos perigos. Um deles é o de falência de todo o grupo do euro. O segundo é o de que a Europa possa rachar como bloco monetário. Poderemos chegar à situação extrema de que alguns países europeus não queiram mais participar e prefiram deixar o bloco.
A situação de Grécia, Espanha e Portugal melhorou? KONRAD: A calma é apenas temporária. Com o grande pacote de socorro da UE, deixa de existir o perigo de uma insolvência atual desses estados.
Mas a questão importante é saber o que vai acontecer quando o pacote sair de vigor, em três anos, e esses países forem de novo entregues a si mesmos. Como reagirão os mercados? Esses países precisarão estar preparados para o pior, caso em três anos não tenham mais acesso a créditos do mercado. Uma saída seria o prolongamento do pacote. E aí teríamos a constatação da união de transferência, perigo sobre o qual eu falo no meu livro.
A Grécia tem chance de resolver o problema de sua dívida gigantesca em três anos? KONRAD: Eu vejo como irrealista esta possibilidade.
Mesmo um programa de saneamento ambicioso não teria o efeito necessário, porque o problema é grave demais.
Os EUA estão piores do que a Europa? KONRAD: A situação na Europa é mais precária.
Há vantagens e desvantagens. A vantagem é um Banco Central Europeu (BCE) que persegue uma meta principal e é protegido pelos acordos europeus, que só podem mudar com a assinatura de todos os membros. Isso protege mais o BCE de intervenções do que o Fed (Federal Reserve, o banco central americano). O perigo de o banco central provocar uma desvalorização da moeda é maior nos Estados Unidos do que na Europa. Mas, por outro lado, temos mais problemas de orçamento na Europa do que nos Estados Unidos.